Especialista analisa estratégia da China e fragilidade da UE no contexto global
A especialista em relações internacionais Liliana Reis analisa a estratégia geopolítica da China face à guerra na Ucrânia, revelando que Pequim pode não desejar um fim rápido do conflito. O debate abrange também a perda de atratividade da União Europeia, com o exemplo da Islândia, e as crescentes tensões no Médio Oriente.
A especialista em relações internacionais Liliana Reis, convidada ao Gabinete de Guerra da Rádio Observador, apresentou uma análise detalhada sobre a postura estratégica da China face à guerra na Ucrânia, questionando se Pequim tem realmente interesse no fim imediato do conflito. Segundo a analista, a manutenção da situação atual oferece vantagens significativas para os interesses chineses, enquanto desgasta o poder militar ocidental e aumenta a dependência de Moscovo em relação a Pequim.
A conversa iniciou-se com uma questão sobre a capacidade da União Europeia (UE) de atuar como um bloco coeso e atrair novos membros. Liliana Reis destacou o paradoxo atual: enquanto a UE tenta acelerar o processo de adesão para países do Leste Europeu e dos Balcãs, como a Ucrânia e a Moldávia, enfrenta resistência em regiões que não partilham das mesmas dificuldades de segurança imediatas. O caso da Islândia é paradigmático. O país está a preparar um referendo sobre a sua adesão à UE, com as previsões na imprensa islandesa a apontar para uma vitória do "não". Esta rejeição revela, segundo a especialista, que a capacidade de atração da União Europeia diminuiu entre estados que não enfrentam ameaças securitárias diretas e imediatas.
Liliana Reis argumenta que este desgaste é resultado dos últimos quase cinco anos de guerra na Ucrânia e das posições contraditórias entre os governos europeus. A referência a "Bruxelas" como símbolo da UE tem sido substituída nas análises geopolíticas por nomes de capitais específicas, como Paris, Roma, Berlim e até Londres, indicando uma fragmentação das posições políticas. Esta fragilidade percebida pode levar outros estados, como a Islândia, a considerar que a adesão num momento de maior debilidade institucional não é uma opção vantajosa.
No teatro de operações ucraniano, as autoridades locais elevaram o número de mortos no ataque russo contra um armazém perto de Kiev para 37. Liliana Reis interpreta este evento como parte de uma tendência de intensificação do conflito, com ataques semelhantes a tornarem-se mais regulares até ao final do ano. Esta leitura é apoiada por alertas da imprensa internacional após a visita do diretor da CIA, William Ratcliffe, à Rússia. A missão de Ratcliffe transmitiu uma mensagem dupla: um incentivo para avançar nas negociações e um aviso contra a escalada do conflito para um Estado-membro da Aliança Atlântica.
A analista sugere que o Kremlin está a tentar escalar a guerra em solo ucraniano para ganhar uma posição de maior força nas futuras negociações. No entanto, permanece a incógnita se a visita de Ratcliffe foi suficientemente dissuasora. Existe o receio de que, em vez de ataques convencionais com mísseis e drones, a Rússia possa recorrer a ataques cibernéticos. Há também uma preocupação específica nos Estados Bálticos — Estónia, Lituânia e Letónia — sobre as possíveis manobras de Vladimir Putin na região.
A situação é particularmente delicada para a Estónia e a Lituânia, que são simultaneamente membros da União Europeia e da Aliança Atlântica. A Estónia tem Kaja Kallas, a alta representante da UE para os Negócios Estrangeiros, e a Lituânia tem o comissário europeu da Defesa. Liliana Reis nota que Vladimir Putin não está apenas a testar a Aliança Atlântica através do Artigo 5º, mas também a testar a União Europeia e a sua cláusula de assistência mútua constante no Tratado de Lisboa.
O foco geopolítico desloca-se agora para a Ásia Central, onde o líder chinês Xi Jinping partiu para o Quirguistão participar na Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCX). O encontro bilateral com o presidente russo Vladimir Putin é considerado crucial. Liliana Reis explica que a OCX tem evoluído significativamente no plano multilateral, permitindo uma concertação entre Irão, Rússia e China em áreas económicas, energéticas, de defesa e políticas.
O encontro Xi-Putin pode revelar como a China transmite apoio à Rússia. Pequim pode sinalizar que Moscovo pode continuar a combater, mas que a sua capacidade de sustentar uma guerra prolongada depende fortemente do mercado chinês, da tecnologia, dos componentes industriais e dos canais financeiros fornecidos por Beijing. Contrariando a noção comum de que a China quer o fim rápido da guerra, Liliana Reis defende que Pequim tem interesse estratégico na prolongação do conflito. Uma guerra longa mantém os Estados Unidos concentrados no Médio Oriente e na Europa, desgasta os estoques militares ocidentais na Ucrânia e no Irão, aprofunda a dependência russa da China e enfraquece a arquitetura de segurança euro-atlântica.
A especialista alerta que, se houver anúncios significativos ao nível da energia, como o projeto do gasoduto "Siberian Power 2", a cooperação sino-russa pode aprofundar-se, o que seria negativo para os interesses europeus e americanos.
No Médio Oriente, o presidente iraniano apelou ao povo para aceitar as consequências económicas da guerra. Liliana Reis observa que as dificuldades económicas no Irão podem mobilizar a população para uma contestação mais acentuada do regime, embora em regimes não democráticos essa mobilização tenha resultados diferentes dos de estados democráticos. Para antecipar esta contestação interna, o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, publicou uma mensagem aos governantes do Golfo, apelando à unidade do mundo muçulmano contra o "verdadeiro inimigo". A mensagem foca-se na defesa mútua, soberania e cooperação.
Khamenei tenta ensaiar uma união do mundo muçulmano porque percebe que vários estados árabes do Golfo se transformaram em plataformas operacionais dos Estados Unidos, o que explica os recentes ataques a bases americanas na região. A combinação da comunicação de Khamenei e da contestação interna sugere que o Irão está a tentar segurar os seus interesses por todos os meios.
Finalmente, Liliana Reis destaca a convergência estratégica entre Irão, China e Rússia na OCX. Embora duvide de uma estratégia operacional conjunta devido à falta de interesse chinês nesse tipo de alinhamento militar direto, prevê-se uma convergência política que fortalecerá o Irão nas próximas semanas. O debate no Gabinete de Guerra terminou com a confirmação da disponibilidade do episódio em podcast, refletindo a complexidade das interações globais onde a guerra na Ucrânia, a expansão da UE e as tensões no Médio Oriente se entrelaçam.
(W.Budayev--DTZ)