Seca causada pelo El Niño assola a América Central
O árido Corredor Seco da América Central sofre os impactos da pior seca da qual a população se recorda, devido ao fenômeno El Niño: os alimentos se tornam escassos e os camponeses se apressam em vender o gado antes que ele morra.
"Às vezes eu começo a chorar. Às vezes a gente come, às vezes não", conta Lidia Ochoa em San Lorenzo, no sul de Honduras.
A região faz parte do corredor seco, que também abrange áreas de Guatemala, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica. Nesta faixa, vivem mais de 10 milhões de pessoas e 80% dos pequenos produtores são pobres, segundo a ONU.
Acostumada a eventos climáticos extremos, a população está perplexa com a severidade do fenômeno que ameaça se intensificar a níveis históricos. "Nunca tínhamos visto algo assim", diz Ochoa, de 76 anos.
Nesta época do ano, o terreno de seu conterrâneo, o agricultor e pecuarista Francisco Molina, deveria estar coberta de milho. Mas é um campo árido cercado de ossadas de gado, onde o calor sufoca.
A cena se repete em El Salvador. "É o primeiro ano em que vimos esta escassez e esta necessidade de água", conta María de la Paz Portillo, de 31 anos, administradora de um reservatório cada vez mais seco que abastece a comunidade de El Matazano (nordeste). Na região, o termômetro já chegou ao recorde de 42°C.
O El Niño, uma variação natural do clima que ocorre a cada dois a sete anos, eleva as temperaturas superficiais no centro e leste do Pacífico equatorial, o que gera mudanças globais nos ventos e nas chuvas, além de condições meteorológicas instáveis.
- Racionar alimentos -
Diante da perda de cultivos geralmente destinados ao consumo próprio, alguns camponeses estão reduzindo as refeições ou são obrigados a comprar aquilo que normalmente produzem.
Embora os governos tenham declarado estado de emergência, sua ajuda parece insuficiente e várias comunidades dependem do apoio de ONGs.
"Todas as colheitas de milho serão perdidas", afirma a líder indígena Elvira Pasá, de uma aldeia remota do município de Cunén, no norte da Guatemala, país com sérios problemas de desnutrição infantil que se agravam com a seca.
A escassez de água também impactou a população de El Matazano, que deixou de criar tilápias para consumo e reserva a água para usos prioritários.
No Panamá, o canal interoceânico, que funciona com água doce, já foi obrigado a reduzir o trânsito de navios.
A falta de água também deixou o gado sem alimento, fazendo com que alguns produtores de San Lorenzo sejam obrigados a vendê-lo a preços muito baixos antes que morra. Centenas de vacas morreram nesta aldeia hondurenha nos últimos meses.
Desde que a seca se intensificou em junho, Darwin Cruz teve de vender duas de suas vacas leiteiras e outra morreu. Restam-lhe três, que produzem um quarto do habitual. Caso não chova, ele corre o risco de também vendê-las para conseguir alimentar sua família.
Segundo os meteorologistas, o El Niño atingirá seu auge no fim do ano, e pode deixar 16 milhões de pessoas na América Latina sem alimento suficiente, afirmou à AFP Lena Savelli, diretora regional do Programa Mundial de Alimentos da ONU. Especialistas estimam que as repercussões do fenômeno continuarão ao longo de 2027.
(W.Uljanov--DTZ)