Deutsche Tageszeitung - Cannes resgata história dos últimos companheiros de Che Guevara

Cannes resgata história dos últimos companheiros de Che Guevara


Cannes resgata história dos últimos companheiros de Che Guevara
Cannes resgata história dos últimos companheiros de Che Guevara / foto: © AFP

Sessenta anos após a morte de Che Guevara na Bolívia, um documentário que estreou no Festival de Cannes resgata do esquecimento a história de seus últimos companheiros de armas, perseguidos durante meses após a captura e execução do guerrilheiro argentino.

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"Queria contar a história dos homens nas sombras", explica à AFP Christophe Dimitri Réveille, que dedicou 22 anos a pesquisar, localizar sobreviventes, militares, agentes da CIA e testemunhas entre Cuba, Bolívia e França.

Che Guevara: Os Últimos Companheiros ("Les survivants du Che"), que mistura arquivos inéditos, animação e entrevistas exclusivas, nasceu quase por acaso.

Réveille havia escrito a biografia de um dos sobreviventes quando conheceu o ator Benicio del Toro, que interpretou Ernesto Che Guevara na saga de Steven Soderbergh em 2008.

Ele conta que o intérprete porto-riquenho comentou com ele que reunir todos os sobreviventes em um mesmo documentário era "impossível". O diretor decidiu tentar mesmo assim.

O cineasta então viajou à Bolívia e visitou o barranco onde o carismático guerrilheiro foi capturado em 1967 pelo exército boliviano após uma emboscada.

"Decidi buscar todos os depoimentos possíveis sobre a morte do Che e sobre o destino dos seis guerrilheiros que sobreviveram" em sua última batalha, afirma o francês.

- Fuga -

Após a emboscada, os seis guerrilheiros iniciaram uma fuga de 2.400 quilômetros por montanhas, florestas e povoados hostis, perseguidos por milhares de soldados.

Entre eles estavam os cubanos Dariel Alarcón "Benigno", Harry Antonio Villegas "Pombo" e Leonardo Tamayo "Urbano", junto com os bolivianos conhecidos como "Darío", 'Ñato" e "Inti".

Seu objetivo era voltar a Cuba, informar Fidel Castro sobre a derrota e continuar a luta armada. Três deles conseguiram chegar a Havana com ajuda do então presidente francês Charles de Gaulle.

Durante décadas, esta fuga desesperada sobreviveu apenas em memórias fragmentadas e relatos dispersos.

Para reconstruir os episódios dos quais não há imagens, Réveille recorreu à animação. Assim, recriou a morte de "Ñato", gravemente ferido e executado por um companheiro, seguindo um pacto entre os guerrilheiros.

"Os verdadeiros heróis são muitas vezes as pessoas anônimas [...], aquelas que fazem as revoluções e cujos nomes nunca aparecem nos livros", afirma.

- Sentimento agridoce -

O documentário evita apresentar uma visão idealizada da guerrilha ou do próprio Che, figura que continua dividindo opiniões décadas após sua morte.

"Che escolheu a violência", reconhece Réveille. "Mas também era alguém que abandonou uma vida privilegiada para lutar pelos outros".

O cineasta entrevistou tanto ex-guerrilheiros quanto militares bolivianos e ex-agentes americanos ligados à perseguição do líder revolucionário. "A verdade é plural", sustenta.

Para Réveille, parte da força persistente do mito deste revolucionário reside na imagem de um homem que morreu jovem por seus ideais.

"O grande paradoxo é que, quando expuseram seu corpo, o mito começou a crescer ainda mais", afirma.

A apresentação do documentário em Cannes, fora de competição, foi marcada por um sentimento agridoce, já que muitos dos homens entrevistados morreram antes de ver o filme pronto.

"Comecei este projeto por eles e a maioria já não está aqui. Mas pelo menos sua história não desaparecerá com eles", diz Réveille.

(V.Sørensen--DTZ)